2011-2015

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O que é psicologia do trânsito?

postado em 1 de out de 2015 10:14 por Fábio de Cristo   [ 1 de out de 2015 10:39 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".

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Os jornais e telejornais frequentemente mostram acidentes e tragédias no trânsito. São motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas que, deliberadamente ou não, comportam-se de maneira perigosa. O que leva as pessoas a fazer barbaridades no trânsito? Este é o desafio de muitos profissionais, dentre eles o psicólogo. Mas, o que é psicologia do trânsito, qual seu trabalho e como se faz isso?

Essa área estuda os comportamentos dos participantes do trânsito e os processos psicológicos associados, considerando ainda os contextos e os lugares específicos onde ocorrem. É uma área simultaneamente de pesquisa e de aplicação

Na pesquisa, produz conhecimentos científicos junto aos indivíduos, aos grupos e às comunidades. Por exemplo, observam e registram comportamentos nas ruas; entrevistam usuários do trânsito; aplicam questionários ou, ainda, pesquisam documentos oficiais e relatórios técnicos para diagnosticar determinada situação; realizam experimentos de campo e de laboratório para estabelecer possíveis relações de causa e efeito, e aplicam testes psicológicos para avaliar características dos futuros motoristas (como a personalidade).

Na aplicação, todas as intervenções do psicólogo do trânsito visam a colaborar com a qualidade de vida das pessoas, ajudando a promover a segurança viária ou o transporte sustentável e democrático. A maioria dos psicólogos do trânsito no Brasil trabalha na avaliação psicológica de motoristas no processo de aquisição da carteira nacional de habilitação, de renovação (no caso dos motoristas profissionais) ou de mudança de categoria. Outras atuações envolvem, em geral:

(1) de pesquisas aplicadas, na tentativa de diagnosticar e sugerir medidas para resolver problemas (por exemplo, grupos de pesquisa);
(2) de orientação, que inclui a disseminação de informações relevantes sobre problemas do trânsito, buscando mudanças sociais (como cursos de educação, especializações em trânsito, participação em ações políticas e assessoria aos órgãos privados ou públicos);
(3) de tecnologia social, isto é, desenvolvimento de soluções com foco no comportamento (por exemplo, consultoria a empresas de transporte, psicoterapia com foco em pessoas com medo de dirigir ou com estresse pós-traumático decorrente de acidente).

Essa diversidade de ações demonstra que a psicologia do trânsito possui grande relevância social e a sociedade precisará cada vez mais do seu suporte para enfrentar os desafios que o trânsito lhe impõe no século XXI.

Como uma pessoa boa e cordial pode agir de maneira má e egoísta no trânsito?

postado em 20 de jan de 2015 07:31 por Fábio de Cristo   [ 20 de jan de 2015 08:31 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".

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As frases abaixo são como “vozes” da consciência, segundos antes do comportamento...

“– Vou parar aqui mesmo! É só pra João Marcos entrar no colégio com segurança...” (para em fila dupla).
“– Não atrapalha tanto assim o trânsito... Vou atender!” (usa o celular enquanto dirige).
“– Ele vai desfilar em vez de passar.” (não prioriza o pedestre que está esperando na faixa).
“– Não há fiscalização!” (dirige em alta velocidade).

O que elas têm em comum? São justificativas que damos a nós mesmos (ou autojustificativas), após a consciência interrogar sobre a razão de fazermos algo errado. Autojustificativas como estas, que atentam contra nossa moralidade, isto é, contra nosso conjunto de princípios sobre o que é certo ou errado, com o objetivo de alcançarmos um benefício momentâneo, chamam-se:
Desengajamento moral.
 
Carro do então ministro Mangabeira Unger (governo Lula), estacionado irregularmente em vaga reservada para deficiente físico
Sua função é fazer com que não soframos – ou não soframos tanto – por uma ação que normalmente reprovamos em nós mesmos. Ao “relaxarmos” a autocensura, diminuímos o sentimento de culpa. Por essa razão, uma pessoa tão boa e cordial como você, amigo leitor, poderá agir de maneira muito má e egoísta no trânsito. Mesmo que seja um intelectual reconhecido internacionalmente, professor da Universidade de Harvard, ex-professor do atual presidente dos Estados Unidos, e ministro de estado no governo Lula (veja foto ao lado e a nota:"Ministro Mangabeira Unger estaciona carro em vaga para deficientes").

Mas, como se constrói esse tipo de autojustificativa? De várias maneiras, afinal, o ser humano é muito criativo. Para entender, é preciso, primeiramente, ter clareza que, em qualquer situação, existe pelo menos: (1) a conduta repreensível, (2) seu efeito e (3) a possível vítima. Esses três elementos – ou a combinação entre eles –, por sua vez, são as bases racionais da transgressão.
 
A autojustificativa com base na conduta repreensível, por exemplo, geralmente é feita reinterpretando nossa ação para torná-la aceitável. Interessante, não? Um exemplo é o primeiro pensamento no início do texto: “...É só pra João Marcos entrar no colégio com segurança...”. Neste caso, a mãe de JM tenta tornar a conduta transgressiva – parar em fila dupla – numa conduta aceitável e prioritária, que é proporcionar segurança ao filho.

A autojustificativa com base no efeito da transgressão, por sua vez, é realizada pela deturpação ou desconsideração das consequências danosas da nossa ação. Visa especificamente a minimizar a intensidade dos (possíveis) danos causados, como no segundo pensamento: “– Não atrapalha tanto assim o trânsito... Vou atender!”. Com isso, o motorista desconsiderou as consequências de atender o celular enquanto dirige.

A autojustificativa a partir da vítima acontece quando o praticante da ação, isto é, o transgressor, inverte a situação. Ele culpa ou desmerece a vítima, conforme o terceiro pensamento: “– Ele vai desfilar em vez de passar”. O pedestre é o culpado do motorista não parar (por “desfilar” em vez de “passar”), razão pela qual não merece prioridade. Quanta criatividade!

Finalmente, existe outra maneira de se construir essas autojustificativas. O praticante da conduta ofusca a sua responsabilidade pessoal sobre a ação. Repare no quarto pensamento acima: “– Não há fiscalização!”. (dirige em alta velocidade).
 
 
Apesar de todo esse esforço pessoal – seja de reinterpretar a situação tornando-a aceitável, de deturpar ou desconsiderar as consequências danosas, culpar a vítima ou de ofuscar nossa responsabilidade –, o comportamento imoral pode ter consequências muito graves para as pessoas e para nós. Por exemplo, num caso real, parar em fila dupla para deixar o filho na escola quase terminou em assassinato. Semelhante ao exemplo no início do texto, uma mãe trancou, por alguns minutos, uma pista em frente ao colégio do filho. Profundamente irritado, um motorista de van escolar que estava logo atrás, desceu armado para tomar satisfação. Felizmente, os transeuntes o imobilizaram. Tudo começou com o desengajamento moral...

Esse é um caso extremo, claro; mas ilustra as consequências potencialmente desastrosas desse tipo de autojustificativa. Isto porque, ao mesmo tempo em que nos permitimos fazer o que é errado, também prejudicamos nossa avaliação das consequências objetivas do comportamento. Afinal, a autojustificativa, de maneira alguma, diminui objetivamente o dano decorrente da transgressão. Pense nisso!

Para ajudar ainda mais em suas reflexões, seguem algumas situações muito comuns em que você poderá sentir-se propenso a se desengajar moralmente. Para cada situação, peço que identifique as autojustificativas mais frequentes que lhe permitem fazer o que não é certo.

Exemplo:
Ultrapassar o sinal vermelho: “não tem fiscalização eletrônica”, “tô atrasado”, “já fiquei parado tempo demais neste cruzamento”, “o sinal verde fica pouco tempo”

Dar uma “fechada” em alguém:_______________________________________
Jogar lixo pra fora do carro:__________________________________________
Estacionar em local proibido:_________________________________________
Tomar uns choppinhos antes de dirigir:_________________________________
Passar por cima de um canteiro para cortar caminho:______________________
Estacionar em vagas reservadas inadequadamente:________________________
Virar em local proibido:_____________________________________________
Não usar cinto de segurança:_________________________________________
Estacionar em cima da calçada:_______________________________________

Agora pense nas consequências reais ou potenciais para as pessoas ou para você decorrentes disso...

Espero que, ao final deste exercício, você mesmo possa identificar as situações e evitar seu desengajamento moral, mantendo-se coerente como uma pessoa boa e cordial em qualquer situação, inclusive no trânsito.

Agradecimentos:
À psicóloga Dra. Lílian de Cristo e ao pesquisador e professor Dr. Fábio Iglesias, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, pela leitura crítica da versão preliminar deste texto.

Para saber mais:
Bandura, A., Barbaranelli, C., Caprara, G. V., & Pastorelli, C. (1996). Mechanisms of moral disengagement in the exercise of moral agency. Journal of Personality and Social Psychology, 71(2), 364-374.

Iglesias, F. (2008). Desengajamento moral. In A. Bandura, R. Azzi & S. Polydoro (Eds.), Teoria social cognitiva: Conceitos básicos (pp.165-176). Porto Alegre: Artmed.

Neto, I. L., Iglesias, F., & Günther (2012). Uma medida de justificativas de motoristas para infrações de trânsito. Psico, 43(1), 7-13. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/11088/7613

Tá difícil enfrentar o caos no trânsito? Elabore um plano

postado em 7 de out de 2014 15:36 por Fábio de Cristo   [ 20 de jan de 2015 08:26 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".

*  *  *     

Apresentadora[1]: – E veja a seguir, depois dos nossos comerciais: reportagem mostra um motorista e um caminhoneiro brigando às 7h da manhã nesta segunda-feira, durante um congestionamento na Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Para falar sobre o assunto, entrevistaremos o psicólogo doutor Pedro Henry, que ajudará o telespectador a enfrentar as situações difíceis no trânsito da Capital Federal... 

(comerciais)

Apresentadora: – Voltamos ao estúdio. Meio dia e trinta e quatro minutos. O assunto agora é violência no trânsito. Dirigir em Brasília se tornou um desafio perigoso, não só pelos índices elevados de mortes por acidentes de trânsito, mas também pelos desentendimentos que terminam em agressão e em pancadaria. Veja a reportagem.

Repórter: – O vídeo foi enviado por uma telespectadora que flagrou o momento da briga que ocorreu após um motorista fechar um caminhoneiro. A cena mostra um motorista entrando no pequeno espaço entre o caminhão e o veículo da frente. O motorista, que saía da pista marginal para entrar na pista principal, entrou justamente nesse pequeno espaço com os veículos em movimento. O caminhoneiro foi obrigado a buzinar e a frear bruscamente. Veja, mais uma vez, o momento em que o motorista entra na frente do caminhão. Como resposta, o motorista coloca o braço pra fora do carro com o dedo médio esticado. Irritado, o caminhoneiro acelerou com tudo batendo forte na traseira do veículo, obrigando o motorista a parar. Foi aí que ambos desceram do veículo e começou a pancadaria. O trânsito, que já estava lento, parou de vez. A briga durou apenas 37 segundos, mas foi o suficiente para ocorrer uma demonstração de selvageria. Eles trocaram vários xingamentos, socos no rosto, chutes e empurrões ao longo das quatro faixas da pista. Muitas pessoas estavam em volta olhando, gritando e buzinando. A briga só parou quando duas pessoas interferiram separando os agressores. O motorista voltou para o carro e foi embora após arrancar em velocidade.

Apresentadora: – O psicólogo doutor Pedro Henry está aqui conosco para comentar as imagens e para discutirmos sobre a violência no trânsito. Boa tarde, doutor! Essa ocorrência, infelizmente, não é isolada. Registramos outros flagrantes que foram exibidos numa reportagem especial, ao longo dessa semana, sobre o trânsito de Brasília. Enfrentamos, no cotidiano, situações de falta de educação, de desrespeito e de individualismo que nos colocam em pé de guerra. Como evitar os comportamentos agressivos diante de situações difíceis que acontecem em nosso cotidiano nos engarrafamentos?

Psicólogo: – Boa tarde ao telespectador. Agradeço o convite para esclarecer e orientar a partir da psicologia do trânsito. Antes de comentar as imagens, cujo foco são os indivíduos, o telespectador precisa ter clareza acerca de um contexto mais amplo do trânsito e do transporte em Brasília, e no país como um todo.

A filmagem mostra, em uma pequena escala, a forma como vivemos em sociedade, ou seja, em um ambiente de elevada competição, de defesa dos interesses pessoais em detrimento da coletividade, de pressão por rapidez... Além disso, este acontecimento também expressa as falhas no sistema de transporte que não possibilita alternativas para o deslocamento, o que, consequentemente, aumenta o número de automóveis nas vias, congestionando-as.

Agora, voltando pra situação foco na matéria, que foi a briga entre os motoristas, observamos a necessidade de as pessoas aprenderem e utilizarem estratégias psicológicas para se proteger emocionalmente ou para conviver em harmonia com os outros motoristas no ambiente social que é o trânsito.

Apresentadora: – Mas por que essas reações ocorrem, doutor?

Psicólogo: – Nós aprendemos, ao longo das nossas experiências, um conjunto de reações psicológicas que nos predispõem a determinados comportamentos em situações ameaçadoras.

Os comportamentos que fazemos sem pensar, sem ter intenção, são também chamados de automatismos. Esses automatismos nos ajudam a lidar com as demandas do dia a dia, sem que tenhamos que pensar prós e contras em todas as ocasiões. Entretanto, os automatismos podem não ser a melhor resposta porque, quando nos deparamos com uma situação ameaçadora, nem sempre agimos como gostaríamos ou como seria desejado socialmente. Pela impossibilidade momentânea de avaliar em detalhes as alternativas de comportamento, as pessoas manifestam uma emoção raivosa, agem de maneira agressiva ou se comportam com extrema violência.

Apresentadora: – É possível não reagir de maneira agressiva, rompendo com nossos maus hábitos no trânsito?

Psicólogo: – Sim, é possível. O ser humano é capaz de mudar e de regular a si mesmo (o que chamamos de autorregulação), desde que ele esteja motivado a fazê-lo. É possível substituir os comportamentos automáticos inadequados ou indesejados que fazemos sem pensar, seja porque nos fazem sentir mal ou porque possuem consequências ruins para os outros.

No entanto, não basta só querer, embora este seja um importante começo. Tem que querer muito mudar. Existem estratégias psicológicas que podem aumentar a probabilidade de dar certo, isto é, de ajudar as pessoas a colocarem em prática essa vontade de mudar. As estratégias de autorregulação oferecem os “passos para o sucesso”, mas não existe mágica!

Apresentadora: – O nosso telespectador deve estar curioso. Você poderia comentar uma dessas estratégias? O que fazer, então, pra não reagir de maneira agressiva no trânsito?

Psicólogo: – Uma estratégia indicada pela psicologia é a intenção de implementação. Significa criar um plano para transformar um objetivo (isto é, uma intenção) em uma ação concreta (ou seja, implementar algo que estamos motivados a fazer). Dito de uma maneira mais simples – embora não exista nenhum gênio da lâmpada –, a intenção de implementação é constituída por “passos para se realizar um desejo”. Mas, nesse caso, você é o seu próprio gênio!

Estudos demonstram que criar esse tipo de plano, por mais simples que possa parecer, pode ter grande efeito no comportamento, inclusive não só no contexto do trânsito, mas em contextos de saúde (por exemplo, fazer atividade física e ter uma alimentação saudável).

Quando criamos um plano, buscamos garantir que uma meta seja alcançada por meio de alguns comportamentos. E esses comportamentos não são selecionados na hora da situação. Eles são selecionamos antecipadamente, isto é, antes de nos depararmos com a situação ou oportunidade. O plano deve ser feito antes de entrar no carro e de sair dirigindo, avaliando-se as situações específicas antecipadamente e os comportamentos selecionados para alcançar o objetivo.

Apresentadora: – Alguns telespectadores poderão pensar “planejar exige tempo e reflexão; não disponho desse tempo”.

Psicólogo: – Sim, existe um esforço inicial, um custo para assim dizer. Isso demonstra que mudar comportamento não é fácil; mas vale a pena e traz benefícios para todos.

Apresentadora: – Interessante! Então para ficar mais claro, como o caminhoneiro e o motorista poderiam ter se preparado para evitar aquela situação?

Psicólogo: – É importante dizer que, nessa situação específica, o caminhoneiro não teve culpa no início da situação, uma vez que o motorista buscou entrar na fila por um espaço que era insuficiente para caber seu veículo. Mesmo assim, ambos poderiam estar mais preparados.

Agora, suponha que o caminhoneiro pega essa pista diariamente no mesmo horário. Ele sabe, portanto, que haverá engarrafamento e que alguns motoristas mais apressados poderão fechá-lo. Essa também é a situação de muitas pessoas.

Elaborar um plano significa selecionar a oportunidade mais adequada e os comportamentos mais efetivos para alcançar o objetivo almejado. Formar uma intenção de implementação nada mais é do que decidir antecipadamente três coisas: quando, onde e como implementar um objetivo. A seguinte frase ajuda a decidir esses pontos: “Se a situação X acontecer, então eu farei Y”.

Dessa maneira, antes de entrar no veículo, o caminhoneiro deve elaborar um plano da seguinte maneira: “se eu estiver na EPTG (onde) próximo a um trecho onde a pista principal se encontra com a marginal (quando), então eu deixarei um carro passar na minha frente (como)”.

O motorista que trafega na marginal, também deve fazer um plano: “se eu estiver na marginal (onde) próximo ao trecho onde essa pista se encontra com a EPTG (quando), então eu entrarei na fila caso exista um espaço adequado para meu veículo (como)”. De certa forma, a implementação de intenção é um benefício para o sujeito e para o outro que convive com ele no trânsito, assim todos ganham com isso.

Essas novas respostas, com o tempo, se tornarão tão automáticas quanto as respostas anteriores (que eram raivosas e agressivas), substituindo-as. A tendência é que a resposta habitual anterior seja bloqueada. Dessa forma, é possível proteger com sucesso a busca pelo seu objetivo, ou seja, de se comportar de uma maneira mais cordial.

Apresentadora: – Muito obrigado, doutor! Antes de terminar, o senhor gostaria de dizer algo?

Psicólogo: – Sim, tenho uma última mensagem ao telespectador: quando você notar que está difícil enfrentar o caos no trânsito, elabore um plano antecipadamente identificando “quando, onde e como fazer”, para não ser pego de surpresa em situações específicas! E lembre-se: planejando, você evitará situações ainda mais estressantes para si e para o outro.

Apresentadora: – Estivemos aqui com o psicólogo Pedro Henry, seguimos agora com a previsão do tempo...



[1] A situação de entrevista e a reportagem são originais, embora criadas com base em fatos reais.

Agradecimentos:
À Dra. Lílian de Cristo e ao professor Dr. Fábio Iglesias, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, pela leitura crítica da versão preliminar deste texto.

Para saber mais:
Gollwitzer, P. W. (1999). Implementation intentions: Strong effects of simple plans. American Psychologist, 54(7), 493-503. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/gollwitzer/99Goll_ImpInt.pdf

Gollwitzer, P. M., & Brandstätter, V. (1997). Implementation intentions and effective goal pursuit. Journal of Personality and Social Psychology, 73(1), 186-199. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/gollwitzer/97GollBrand_ImpIntGoalPurs.pdf

Gollwitzer, P. M., & Oettingen, G. (2013). Implementation intentions. In M. Gellman & J. R. Turner (Eds.), Encyclopedia of behavioral medicine (Part 9, pp. 1043-1048). New York: Springer-Verlag. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/oettingen/Gollwitzer,%20P.%20M.,%20&%20Oettingen,%20G.%20(2013).%20In%20%20M.%20Gellman%20&%20J.%20R.%20Turner%20(Eds.).pdf

A dimensão social dos acidentes com motociclistas

postado em 4 de abr de 2013 21:13 por Fábio de Cristo   [ 5 de fev de 2015 05:12 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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A maneira como as pessoas se locomovem vem se modificando nos últimos anos nas cidades brasileiras, notadamente com o aumento da venda de motocicletas. Para se ter uma ideia, antigamente, no interior, andava-se predominantemente de cavalo, carroça e bicicleta. Hoje, as motos são usadas inclusive para levar o gado do pasto para o curral. Esta mudança para um transporte mais potente e veloz, não raro, é feita sem maiores preocupações pelas autoridades de trânsito e pelos (novos) condutores. É comum, em muitas cidades, conduzir a motocicleta sem se preocupar com a proteção e a segurança.

Muitos jovens têm sido vítimas no trânsito, sendo estimado um aumento de 32,3% no número de óbitos por acidentes de transporte terrestre na última década – 2000 a 2010, segundo um estudo com dados do Ministério da Saúde. A taxa de mortalidade de ocupantes de motocicleta no Brasil, que tem aumentado a cada ano, é uma das responsáveis por este aumento das mortes no geral. Como consequência, causam um prejuízo elevado ao país, devido aos custos envolvidos com internações, cirurgias, medicamentos e afastamentos remunerados do trabalho, para citar alguns. Muito além disso, quando o acidentado sobrevive, ocorrem profundas mudanças na sua rotina e na da família. Mas como evitar tais ocorrências? A matéria abaixo pode ajudar a pensarmos numa possibilidade.  

“Jovem motociclista fica paraplégico após acidente no interior da Paraíba.


Na noite de sábado, Francisco de 19 anos ficou paraplégico após colidir com outra motocicleta num cruzamento da cidade. As duas motos transportavam passageiros acima do permitido, cada uma com três pessoas. Segundo os policiais rodoviários, todas as vítimas estavam sem capacete. Francisco, que pilotava uma das motos, foi encaminhado ao hospital. Sua família está transtornada com a situação do rapaz, que perdeu a sensibilidade e o controle das pernas. Os demais envolvidos no acidente sofreram ferimentos leves.”

(Jornal Popular do Interior, janeiro de 2009) [1].
 
Esse acidente tem coisas bem peculiares que instigam nossa curiosidade, afinal: Por que todos os seis envolvidos estavam sem capacete? Será que transportar mais de duas pessoas na moto é comum nesta cidade? Acidentes assim são uma exceção neste lugar?

Estas perguntas têm a ver com um elemento importante para a promoção da saúde e segurança no trânsito: a análise da dimensão social dos acidentes com motociclistas. A dimensão social, neste caso, significa compreender que parcela dos comportamentos indesejados, inseguros ou de risco pode ser influenciada e mantida pelo grupo, como os outros motociclistas, ou pela comunidade, quer dizer, os moradores de uma cidade.

Isto é possível? Sim. Na cidade de Francisco, na realidade, sair sem capacete é tão comum quanto andar com a família inteira em cima da garupa. Por lá, quem usa capacete é reprovado socialmente, afinal: “aqui não precisa, é tudo pertinho”, “faz muito calor e o capacete abafa pra danado” ou “porque todo mundo anda assim mesmo”, dizem motociclistas e moradores locais.

Parece, então, que as “causas” dos comportamentos dos motociclistas nem sempre estão “dentro” deles, como se costuma pensar (por exemplo, “fulaninho é assim mesmo”, “é ruindade dele” ou “sua índole é má”). Dito de outra maneira, muito do que se passa “dentro de nós” é influenciado por coisas que acontecem “fora de nós”, quer dizer, são construídas a partir da dimensão social. Vejamos isso com mais detalhes...
 
O comportamento do motociclista é fortemente influenciado por sua intenção, isto é, sua motivação para realizá-lo (é algo que está "dentro" da pessoa). A intenção, portanto, é o elemento capaz de explicar melhor o comportamento, a ação. Nesta lógica, concluímos que Francisco não usou o capacete (comportamento) porque ele estava pouco motivado para usá-lo (intenção).

Mas esta intenção, por sua vez, é influenciada por outros três elementos relativos à dimensão social, ou como o indivíduo a interpreta, conforme argumenta uma importante teoria da psicologia, a teoria do comportamento planejado. Os três elementos são: (1) a atitude em relação ao comportamento, (2) a pressão social e (3) o controle percebido sobre o comportamento. Segunda a teoria, podemos planejar nossas ações, se quisermos; mas nossa motivação dependerá em grande parte desses três elementos que citei. Vejamos cada um deles a seguir, tentando aplicar ao caso de Francisco.

A atitude nada mais é do que a avaliação positiva ou negativa que fazemos em relação a alguém ou a alguma coisa. No caso de Francisco, pode ser a avaliação negativa que ele fez em relação ao uso do capacete (pensamentos do tipo “usar capacete é ruim” ou “fica abafado”). Aqui vale uma ressalva: repare que, na psicologia, atitude é diferente de comportamento, ainda que, no senso comum, sejam considerados semelhantes, como quando se diz: “Francisco tomou uma atitude e comprou uma moto!”. Enquanto a atitude é uma inclinação, disposição ou avaliação para se comportar ou não de determinada forma em relação a algo, o comportamento é aquilo que se observa, a ação que a pessoa realiza de fato. Entendido?

A pressão social é o que pensamos que os outros acham que nos devemos comportar. Esses “outros” são pessoas que valorizamos; podem ser outros motociclistas ou moradores da cidade. Geralmente, queremos agir em conformidade com o que eles pensam de nós. Na história de Francisco, é possível supor que ele não se sentiu pressionado a usar capacete, afinal, todos estavam sem a proteção e não o cobraram.

Finalmente, a percepção de controle sobre o comportamento, também influencia a intenção. É o quanto percebemos ter controle sobre o nosso comportamento ou o quão difícil ou fácil é realizá-lo. Por exemplo, se os obstáculos para usar o capacete eram percebidos por Francisco como muito grandes (dificuldades para guardá-lo ou carregá-lo), ele não se esforçaria – ou se esforçaria pouco – para usá-lo.

Mas, como esses elementos – intenção, atitude, pressão social e percepção de controle – podem nos ajudar na prevenção de acidentes com motociclistas? Pode ser útil de diversas formas, como informar e educar as pessoas. Imagine que a secretaria de saúde (ou uma empresa privada ou qualquer instituição) da cidade de Francisco está preocupada com os acidentes de moto e quer diminuir esta incidência. 




O objetivo da secretaria é, portanto, incentivar o comportamento de “usar capacete”. Aplicando a teoria neste caso, primeiramente, é importante identificar o grau de intenção de usá-lo (isto é, será que a motivação de usar capacete é elevada entre os motociclistas da cidade?). Posteriormente, identificar as razões para isso, que são os três principais elementos que influenciam a intenção. Assim, a análise poderia indicar que a intenção é baixa porque a atitude de usar o capacete é negativa, isto é, usar o capacete é avaliado como ruim; além disso, pode revelar que a pressão social para usar o capacete não existe, ou seja, os motociclistas não percebem que as pessoas que lhe são importantes pensam que eles devem usá-lo; e que os motociclistas percebem ter pouco controle sobre o uso do capacete, uma vez que, segundo eles, usá-lo requer “grande esforço”.

A secretaria de saúde, então, poderia investir em informação junto aos motociclistas (meios de comunicação em massa ou outra campanha) na tentativa de reverter a situação identificada, tentando aumentar o grau de intenção dos motociclistas para usar o capacete. Para isso, poderia estimular a atitude positiva e a pressão social para usá-lo, além de tentar fazer os motociclistas perceberem que eles têm – e podem – exercer o controle, e que é prático usar o capacete.

Além das campanhas, outras estratégias devem ser pensadas e implementadas em conjunto, visando a influenciar a intenção e os seus determinantes. O aumento da fiscalização, por exemplo, pode produzir impacto nas pessoas e, consequentemente, aumentar a pressão social. A promoção de cursos de atualização pode influenciar positivamente na atitude de usar capacete. Disponibilizar estacionamentos públicos com guarda-volumes pode ajudar na percepção de controle sobre o comportamento, uma vez que guardar o capacete adequadamente ajuda a minimizar estas barreiras.

Em suma, se, por um lado, a dimensão social mantem muitos comportamentos de risco dos motociclistas; por outro, também pode ser usada em favor da segurança para influenciar comportamentos individuais, considerando a teoria do comportamento planejado como exemplo. Desconsiderar a dimensão social fará com que a intervenção preventiva tenha grande probabilidade de fracasso, o que tornará cada vez mais comum matérias jornalísticas semelhantes à do início do texto, em que os Franciscos do nosso país perdem a vida ou sofrem severamente as consequências dos acidentes de trânsito com sua motocicleta. 
 
[1] Nota: A matéria é fictícia, mas o conteúdo é baseado em um caso real.
 
Para saber mais:
Manstead, A. S. R. (1996). Attitudes and behaviour. In G. R. Semin & K. Fiedler (Eds.), Applied social psychology (pp. 3-29). London: SAGE.
 
Morais Neto, O. L., Montenegro, M. M. S., Monteiro, R. A., Siqueira Júnior, J. B., Silva, M. M. A., Lima, C. M., Miranda, L. O. M., Malta, D. C., & Silva Junior, J. B. (2012). Mortalidade por acidentes de transporte terrestre no Brasil na última década: Tendência e aglomerados de risco. Ciência & Saúde Coletiva, 17(9), 2223-2236. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n9/a02v17n9.pdf
 
Vasconcellos, E. A. (2008). O custo social da motocicleta no Brasil. Revista dos Transportes Públicos, 119/120, 127-142. Disponível em: http://apatru.org.br/arquivos/%7B119C97E2-4817-4324-B4C8-978DC4F1A446%7D_revista-da-antp-119-20-artigo-eduardo-vasconcellos.pdf 
 

A carga de trabalho mental do motorista

postado em 29 de set de 2012 18:07 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:54 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Se você já usou um computador com vários itens abertos ao mesmo tempo, já percebeu que, dependendo da quantidade e do tipo de programa em uso (internet, jogos e vídeos), ocorre uma queda considerável no desempenho da máquina. Neste caso, a capacidade do computador processar informações ultrapassou o seu limite ótimo de funcionamento, especialmente quando ele não é tão potente. Por esta razão, ele fica lento e demora a abrir ou executar um novo programa, irritando o usuário. O computador pode servir de analogia para compreendermos um pouco a tarefa do motorista...

 
No trânsito, nossos comportamentos são realizados de maneira dinâmica e num ambiente que muda constantemente. A atividade de conduzir demanda certa carga de trabalho mental, afinal, são muitas informações que devemos prestar atenção para adaptarmos nosso comportamento. Algumas informações são oriundas, por exemplo, da rua, dos outros veículos, dos pedestres; outras vêm do próprio veículo, como as informações do rádio, do passageiro, do computador de bordo, do sistema de guia de rotas (GPS – Global Positioning System), cujo uso tem sido cada vez mais comum. Mas não é só por conta dos estímulos internos e externos relacionados à atividade de dirigir que têm aumentado relativamente a carga mental do motorista. Existem outras tarefas, não exatamente relacionadas ao trânsito, impostas por nós mesmos durante a condução...

Uma vez, peguei carona com uma motorista que me deixou nervoso – mas não pelo fato de ser uma mulher, é bom deixar claro! Qualquer pessoa sentiria o mesmo no meu lugar. Saímos para um compromisso já atrasados. Na rua, com o carro em movimento, a motorista começou a conversar comigo, gesticulando muito – uma característica sua. Ela falava sobre o nosso atraso e sobre a quantidade de coisas que ela devia fazer naquele dia. Mais a frente, ela se deu conta que estava sem o cinto de segurança e, com o carro em movimento, soltou o volante para puxá-lo com as duas mãos. O cinto, por sua vez, travou no meio do caminho. Ela tentou, tentou e, enfim, conseguiu destravar e afivelá-lo... Enquanto isso, o carro seguia pela rua passando por dois cruzamentos – em que ficamos confusos de quem é a preferencia de passagem, se nossa ou do motorista que vem na transversal –, e a conversa também continuava... Logo em seguida, de repente, a motorista olhou para trás e pegou a bolsa do banco de traseiro, botando-a rapidamente no seu colo. Entre uma olhada e outra na rua, abriu a bolsa com uma das mãos, pegou seu iFone e colocou-o subitamente no colo. A motorista começou a ver se tinha mensagem, alternando sua visão entre o trânsito e o aparelho, com uma das mãos ao volante, apertando aquelas teclas pequenininhas com aparente agilidade. Muito tenso, eu preparava-me para o pior, claro; afinal, se viesse algum carro inesperadamente no cruzamento, ela nem perceberia e nem teria tempo para livrar-nos do perigo. Finalmente, saí do torpor e resolvi comentar a situação. Foi aí que a motorista se deu conta e voltou, graças a Deus, a concentrar-se no trânsito. Felizmente, estou aqui são e salvo! (risos).

O relato acima demonstra que a tarefa de dirigir pode tornar-se mais exigente quando incluímos outras atividades que não são prioridade quando estamos dirigindo: pegar e manusear objetos, afivelar o cinto de segurança, mandar e ler torpedos etc., coisas que, geralmente, podemos (devemos) fazer antes ou depois de dirigir. Como nem sempre sofremos as consequências aversivas do nosso comportamento arriscado, continuamos mantendo-o ao longo do tempo. Assim, infelizmente, esta maneira de se comportar tornou-se um padrão que nem nos damos mais conta, até que alguém chame a atenção.

No caso do computador, a solução para o aumento na quantidade de tarefas pode ser trocar o processador por um mais potente. No caso do motorista, como uma solução semelhante não é possível, o mais coerente é sermos compreensíveis com as limitações naturais do nosso organismo e da nossa capacidade psicológica. Busquemos, então, diminuir a quantidade de estímulos que nos impomos voluntariamente e que interferem negativamente na nossa tarefa de dirigir. Se você é um carona, colabore para não aumentar desnecessariamente a carga de trabalho mental do motorista, pois, diferente de mim, você poderá não estar aqui para contar a história.

Para saber mais:
De Waard, D. (1996). The measurement of drivers´ mental workload (Tese de doutorado, University of Groningen). Retirado de
http://home.zonnet.nl/waard2/dewaard1996.pdf

Jahn, G., Oehme, A., Krems, J. F., & Gelau, C. (2005). Peripheral detection as a workload measure in driving: Effects of traffic complexity and route guidance system use in a driving study. Transportation Research Part F, 8, 255–275.

Piechulla, W., Mayser, C., Gehrke, H., & König, W. (2003). Reducing drivers´ mental workload by means of an adaptive man–machine interface. Transportation Research Part F, 6, 233–248.

Dar “dicas” ou fazer “provocações”?

postado em 25 de ago de 2012 06:14 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:47 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Fonte: http://kalvikalanjiam.com/english/what-know-our-company-interview-tips/
Ao final da uma entrevista, um jornalista pediu dicas sobre o que seus leitores deviam fazer para deixar o trânsito da cidade melhor. O entrevistado pensou um pouco e, por achar mais apropriado ao público, resolveu que, em vez de dar dicas, faria algumas provocações, isto é, colocaria questões para serem pensadas. Assim foi feito. A entrevista foi encerrada.

No dia seguinte, inconformado, o jornalista ligou novamente: “– Professor, muito obrigado pela sua colaboração; adorei as provocações. Entretanto, será que o senhor não poderia dizer algumas coisas práticas para o nosso leitor? Será que não podemos dizer para eles seguirem o código de trânsito...? O que o senhor acha...?”.

Pois bem, dar dicas ou fazer “provocações” são estratégias distintas que os formadores de opinião devem ter clareza para aplicá-las com proveito.

Dar dicas, por exemplo, fundamenta-se na seguinte ideia: se as pessoas conhecerem as normas de trânsito, logo se comportarão corretamente, de maneira segura. Todavia, nem sempre este raciocínio está correto, conforme demonstra o nosso tricampeão mundial de Fórmula 1 (e veja também a foto do carro da polícia estacionado em local proibido). 

http://www.bemparana.com.br/noticia/211190/cultura-revitalizacao-do-guaira

As dicas têm a sua importância, especialmente quando relacionadas a situações menos frequentes ou procedimentos com maior nível de complexidade, como, por exemplo, instalar a cadeirinha infantil e prestar os primeiros-socorros ao acidentado. Estas situações são incomuns para muita gente e, portanto, dicas e instruções são bem-vindas. Todavia, quando são elementares ou muito gerais – como, “dizer que eles sigam o código de trânsito” –, dependendo do nível de conhecimento do público a que se destinam, as dicas podem não ser atrativas, motivadoras. Em suma, não agregarão conhecimento por que as pessoas que as recebem serão indiferentes. Além disso, não raro, elas produzem uma reação aversiva. Quem já não ouviu ironias do tipo: “– Oxente, e precisava de um especialista só pra dizer isso?!”. 


É oportuno reconhecer que, de fato, muitos cidadãos já sabem o que fazer – se não fazem, são por outras razões. A legislação de trânsito no Brasil tem mais de 100 anos de existência. Nesse período, três códigos ajudaram organizar nossos deslocamentos (1941, 1966 e 1997). Muitas regras foram naturalmente incorporadas no nosso cotidiano, seja por meio das aulas na escola ou autoescola, seja por meio das experiências cotidianas... Talvez por isso, as dicas soem, às vezes, como se quiséssemos “ensinar o padre a rezar missa” ou “ensinar o 'padre-nosso' ao vigário”, como se diz popularmente. Até quando, então, os formadores de opinião e alguns de nós, ditos especialistas, continuaremos subestimando a inteligência das pessoas?

A estratégia da “provocação”, por sua vez, no melhor sentido da palavra, se refere, aqui, a promover, a estimular, a motivar alguma reação positiva que se reflita no comportamento no trânsito. Sua importância reside, por exemplo, na possibilidade de produzir, de modo eficiente, uma incompatibilidade ou inconsistência entre uma nova informação e o que o leitor conhece ou faz. Na psicologia, tal inconsistência é chamada de dissonância cognitiva. (A psicologia tem palavras complicadas mesmo).

Dito de outra maneira, assim como a fome faz com que busquemos saciá-la, nós também temos a tendência de buscar resolver a dissonância estabelecida entre o que pensamos e sentimos ou entre o que acreditamos e fazemos.
Na narrativa acima, é possível argumentar que o jornalista entrou em dissonância, quer dizer, em conflito consigo por que as informações que ele recebeu (provocações) não eram as que ele almejava (dicas). Um desconforto psicológico, então, foi estabelecido, motivando a busca para reduzi-lo ou eliminá-lo. Resultado: ele agiu; ligou novamente no dia seguinte. Era mais ou menos essa reação que o entrevistado esperava dos leitores, após lerem suas provocações: que eles se sentissem motivados a mudar, e mudassem realmente. O jornalista não compreendera a tática ou subestimara sua eficiência.

A provocação pode ser mais interessante do que as dicas, especialmente nos tempos atuais, em que as pessoas estão cada vez mais escolarizadas, conhecedoras dos seus direitos e, portanto, com a capacidade crítica mais aguçada.

Os jornais cumprem um papel esclarecedor importante sobre o comportamento no trânsito. Nesta seara, a dissonância cognitiva tem um valor que não deve ser desprezado. Se bem compreendida e empregada, a dissonância pode ser capaz de produzir autorreflexão e fazer as pessoas se esforçarem para buscar coerência rumo ao comportamento seguro no trânsito.

Amigo leitor, diante do que foi dito, peço agora que tente construir sua resposta sobre qual é a melhor estratégia: dar “dicas” ou fazer “provocações”? (Sim, estou tentando deixá-lo em dissonância!).


Para saber mais:
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. California: Stanford University Press. Disponível parcialmente aqui.

Planejando o comportamento de NÃO beber e dirigir

postado em 23 de fev de 2012 07:56 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:46 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Hoje em dia, dificilmente, as pessoas desconhecem os riscos, tanto para si quanto para os outros, de ingerir bebida alcoólica e conduzir um automóvel ou motocicleta. Dificilmente, elas também desconhecem que este comportamento é uma infração ao código de trânsito. Caso seja pego numa fiscalização, o motorista alcoolizado terá uma grande dor de cabeça, pela ressaca física ou moral, pela perda de tempo e pelos custos financeiros – multa atualmente de R$ 957,70, suspensão do direito de dirigir por doze meses, retenção do veículo até que chegue um condutor habilitado e recolhimento da habilitação.
 
Não beber e dirigir, em alguns casos, é um comportamento bastante desafiador, necessitando planejamento para obter sucesso. Mas, é possível planejá-lo? Sim, é possível fazê-lo, a fim de dirigirmos em paz, com segurança e em conformidade com a lei. Contudo, para elaborar e executar este plano, é necessário ter consciência de, pelo menos, três elementos que estão em jogo influenciando nossa intenção e comportamento.
 
Com o aumento da fiscalização, do rigor da lei e das possíveis consequências punitivas, muitas pessoas têm desenvolvido atitude favorável ao ato de “não beber e dirigir”, embora o comportamento ainda seja pouco valorizado socialmente. Esta avaliação positiva sobre o não beber e dirigir, associado a uma avaliação negativa das consequências de ser pego embriagado, é um primeiro elemento importante que influencia nossa intenção. É o nosso despertar crítico para a situação, e um sinal de mudança de nossa parte.
 
 
O segundo elemento importante é a pressão social, geralmente exercida pelos amigos para ingerir bebida alcoólica. Mas, por que os amigos são tão decisivos na nossa motivação e até no comportamento? Em geral, temos muita estima, respeito e admiração pelos amigos. Eles nos orientam, riem e choram com a gente. Conhecem nossos jeitos, aspirações, problemas. Os amigos são aquelas pessoas importantes para nós e fazem a vida valer a pena. É natural, portanto, querer comportar-se conforme achamos que mais agradaria eles, ou seja, acompanhando-os na cerveja. Isto, por sua vez, interferirá na nossa vontade de tentar e na quantidade de esforço que planejamos manifestar para realizar o comportamento.
 
Resistir, portanto, à influência deles é um dos grandes desafios para muitos motoristas e motociclistas que saem para um barzinho ou uma festa. Em 70% dos casos, os amigos conseguem diminuir nossa intenção de não beber... Tudo bem, em 99% dos casos! É por isso que as propagandas de cerveja usam encontros entre amigos para vender bebida. Se identificarmos e administrarmos com habilidade esta pressão, possivelmente não fracassaremos minutos depois da chegada ao bar.
 
Quando dizemos “– Não!”, o amigo, em geral, fica frustrado, perguntando logo: “– Num vai beber por quê?”. A pergunta tem sua lógica, afinal, supostamente, estaríamos ali pra beber. Portanto, é isso que se espera de nós: que bebamos. Ademais, foi um gesto tão caloroso e espontâneo... Por qual razão negaríamos uma cervejinha, contrariando-os logo na chegada?
 
Tem amigo também que, antes mesmo de justificarmos, ele já responde com ar provocativo o que havia perguntado, tentando avaliar e diminuir o nosso grau de motivação para não beber. Sabemos como eles são bons nisso (veja um exemplo de propaganda de cerveja aqui).
Eles fazem pressão mesmo. Alguns argumentos para nos convencer são leves (mas bastante eficientes), como: “– Vai esquentar a cerveja!”. Outros podem ser mais fortes, mexendo com a nossa coragem, dizendo: “– Rapaz, num lhe conheci fraco assim, sem beber!”, ou apelam para a amizade de longa data: “– Tome só essa, em nome da nossa amizade, vai...”. É fundamental, portanto, resistir a essas pressões.
  
O terceiro elemento que torna os amigos tão decisivos na nossa intenção e comportamento é a percepção de controle. É importante percebermos que temos ou podemos ter o controle sobre nosso comportamento, e, mais importante, que podemos exercê-lo no momento oportuno, aumentando a probabilidade de concretização da nossa intenção de não beber.
 
O controle sobre o comportamento está conosco, ou seja, dependa da gente. Podemos, assim, impedir educadamente que o copo seja cheio de cerveja, colocando a mão em cima dele; se este já estiver cheio, podemos afastá-lo, agradecer pelo gesto e pedir um refrigerante, água ou suco.
 
Em algumas situações, todavia, por mais que o controle esteja conosco, acreditamos que é muito difícil dizer “– Não, obrigado! Não vou beber”, antes que o amigo encha o copo americano com o “precioso” líquido. Nestes casos, o nosso controle percebido sobre o comportamento é baixo. A consequência disso é que, se os “obstáculos” para resistir são percebidos como muito grandes, nos esforçaremos pouco para não beber.
 
Se conseguirmos, então, administrar bem os momentos que dizemos “não” (incluindo as várias vezes que temos de dizê-lo numa mesma ocasião), como também as reações dos amigos, nós teremos alguma esperança de conseguir, de fato, não beber. Em suma, nossos amigos podem ter a “força”; mas nós também temos a “fraqueza”.
 
Amigo leitor, o comportamento de não beber e dirigir pode ser planejado. Então, planeje-o antes de sair conduzindo automóvel ou motocicleta para onde vai rolar bebida alcoólica. Este comportamento dependerá, em grande medida, tanto do controle que você percebe ter quanto do grau da sua intenção de realizá-lo.
 
A intenção de realizar o plano, por sua vez, dependerá de três elementos, ou seja, será maior quando a sua avaliação sobre as consequências do seu comportamento de não beber e dirigir forem consideradas positivas (atitude); quando, segundo a sua avaliação, a pressão dos seus amigos, naquele momento, não exercer tanta influência (pressão social); e, finalmente, quando você perceber que tem controle sobre este comportamento (percepção de controle)... 
 
  << Telefone celular chamando... >> 
 
– Alô!
– E aíííí, meu amiiiigo! Tudo bem?
– Vinícius?! Nããão acredito! Tudo ótimo! E você?
– Tudo jóia! Escuta, tenho uma novidade! Tô de casa nova, e morando de frente pro mar! Quero te convidar para conhecê-la, pode ser hoje à noite?
– Claaaaro! Será um prazer.
– Perfeito! Quando você vier pra cá de carro mais tarde, lembre-se de trazer seu violão, ok? Faremos um sonzinho. Outra coisa, estou indo ao supermercado preparar tudo. Você vai querer beber o quê, vinho ou cerveja?
– ... 
 
Para saber mais:
1. Åberg, L. (2001). Attitudes. In P.-E. Barjonet (Ed.), Traffic psychology today (pp. 119-135). Norwell: Kluwer Academic Publishers.
2. Ajzen, I. (1991). The theory of planned behavior. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 50, 171-211.
3. Brasil. (2008). Lei nº 11.705, de 19 de junho de 2008. [Dispõe sobre as restrições ao uso de bebidas alcoólicas]. Recuperado em 19 de fevereiro 2012, de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11705.htm
4. Parker, D., Manstead, A. S. R., Stradling, S. G., Reason, J. T, & Baxter, J. S. (1992). Intention to commit driving violations: An application of the theory of planned behavior. Journal of Applied Psychology, 77(1), 94-101.

Além das estatísticas: Repercussões afetivas da perda por acidente de trânsito

postado em 11 de fev de 2012 03:40 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:47 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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Em uma noite inspiradora de quarta-feira, falava um palestrante à sua enorme platéia, cuja grande maioria era de estudantes universitários. Depois de uma ligeira pausa, demonstrando a face séria e a voz serena, continuou dizendo:

"– Meus amigos, tenho mostrado aqui vários gráficos com estatísticas de acidentes de trânsito no Brasil e no mundo. Temos discutido exaustivamente o papel dos legisladores e da fiscalização na minimização dessa tragédia. Tenho indicado o número de mortos e feridos, além dos custos financeiros dos atendimentos às vítimas e às reformas nos espaços públicos danificados. Mas ainda não falei tudo. Embora veja no olhar e na expressão de vocês que o conteúdo apresentado foi compreendido intelectualmente, ou seja, pelo raciocínio, é igualmente importante que vocês compreendam o conteúdo emocional do nosso tema, isto é, que sintam em seu coração. Existe um fato que não está contabilizado nessas estatísticas e que nos ajudará nesta tarefa: a dor emocional de perder quem se ama num acidente de trânsito. O quê vocês sabem dizer sobre isso?".

Após esta pergunta, fez-se outra pausa. A audiência, surpreendida, permanecia em silêncio, em atitude reflexiva, até que o palestrante retomou a palavra.

"– Suponho que muitos aqui não têm uma resposta pronta para esta pergunta. Assim, eu os ajudarei na sua construção...
Por favor, de olhos fechados, imagine que você perdeu agora um ente muito querido, em decorrência de um acidente de trânsito. Agora, imagine que esta pessoa é sua mãe.
Não abra os olhos. Continue o exercício.

A partir deste minuto, sua mãe simplesmente não estará mais perto de você fisicamente nos próximos natais, festas de família ou no seu aniversário.
Como seria viver sem ela pelo resto da vida? Imagine que você não terá mais seus paparicos, nem aquele cafuné.

A partir de hoje, ela não te acordará mais carinhosamente nos fins de semana, como costumava fazer. Aquela massagem leve nos dedos que te fazia despertar lentamente, isso não existirá mais.
Sabe aquele abraço caloroso, aquele que te cobre todo, envolvendo a alma na mesma vibração, de coração para coração? Infelizmente, dele só restará a sensação sentida na última vez...

Dificilmente, você saberá avaliar a extensão do vazio no peito por não tê-la nos momentos de decisão que a vida te exigirá; afinal, parece que só ela possuía a sabedoria, o pensamento visionário e o espírito orientador capaz de te sensibilizar e expandir a mente.
Sabe aquelas risadas frouxas que você costuma dar a cada anedota que sua mãe conta? Sem elas agora, você, certamente, reconhecerá como é triste levar a vida com menos graça. Nesses momentos de descontração, você não desfrutará daquela gargalhada gostosa.
Imagine que todas essas coisas boas serão perdidas subitamente, tudo de uma vez, literalmente da noite para o dia.

Sabe os apelidos carinhosos que ela inventava para você, aqueles no diminutivo, e que só ela possuía autorização para pronunciá-los? Eles serão lentamente esquecidos pelo desuso. Em alguns raros momentos, alguém inexplicavelmente pronunciará um deles te chamando, e nessa hora, um filme passará na sua mente, relembrando alguma cena dos bons momentos com a sua mãe. Discretamente, poderá rolar uma lágrima de saudade.
Também será um golpe poder vê-la 'de verdade' apenas nos sonhos. Estes sonhos serão tão emocionantes e reais que dificilmente chegarão ao fim, pois o choro e os soluços intensos te farão acordar, seja no meio da madrugada ou durante um cochilo depois do almoço. Você tentará voltar para o sonho, mas em vão.

Mesmo amando muito sua mãezinha, só depois de muito tempo – ou anos, quem sabe –, você conseguirá visitá-la no túmulo e deixar uma flor no vaso. Isto ocorrerá depois de você ter tentado e falhado algumas vezes, o que é natural, pois não é esse tipo de visita que nos acostumamos a fazer.
Você poderá sentir uma imensa saudade de sua mãe quando menos espera. Às vezes, a saudade irromperá, seja quando contemplar uma paisagem, revirar antigas fotos ou ao tomar banho.

Em alguns dias, você a buscará deliberadamente no pensamento. Em outros, você fará questão de não lembrar, mesmo que a imagem dela venha em sua mente automaticamente por algum estímulo. É muito duro não querer pensar em quem se ama, mas isso acontece.
Quando você ganhar um prêmio almejado há anos, sua mãe não te dará os parabéns ao vivo, mas não por que ela não queira. Quando você fracassar, também não haverá a palavra justa de consolo que ela costumava dizer (e funcionava para você): '– Teeeenha paciência! Teeeenha paciência!'.

Passados vários anos, você ainda sentirá enormemente a sua falta, mas não é qualquer falta. Você, então, haverá aprendido que falar de acidente de trânsito não é somente discutir números, realçar a tragédia, o horror, o sangue, as latarias amassadas ou as sirenes das viaturas tocando, momentos estes que serão passageiros. Tampouco se trata apenas do instante da morte, mas fundamentalmente de algo mais duradouro, que você levará consigo até o fim: viver com a ausência e conviver com as lembranças.

Passados 14 anos, muita coisa terá mudado na sua vida. Você se formou, casou, mora em outra cidade... E, com tanta mudança, você agora não conseguirá mais imaginar como seria se ela ainda estivesse aqui.
Ainda que você escreva ou relate a sua experiência para uma ou mais pessoas, como eu faço aqui e agora, você provavelmente ainda sentirá a ausência daquela figura amorosa cujo legado teve de ser interrompido. É como se fosse o reviver da mesma dor do primeiro dia de perda, depois que ela foi sepultada nos belos jardins do cemitério...".  
 
* * *  
O exercício, que inicialmente parecia ser “imaginário” e se transformara lentamente num belo relato pessoal sobre a perda de bons momentos, seguia para os seus minutos finais. De fato, eu sentia no coração o que o nosso interlocutor queria nos fazer compreender naquela palestra inesquecível. Abri os olhos discretamente e reparei que a platéia permanecia silenciosa e de olhos cerrados. Pelo semblante de muitos, concluí que eles também compreenderam aquele ensinamento sobre as consequências dos acidentes de trânsito, um assunto cada vez mais desumanizado e tão baseado em números que se torna, às vezes, incapaz de produzir reflexão em quem ouve. Imaginar a dor emocional de perder quem se ama aproximou o tema de cada um dos participantes (ex-espectadores), ajudando-nos a reconhecer que, em matéria de acidente de trânsito, tão importante quanto compreendê-lo intelectualmente é compreendê-lo emocionalmente, a fim de que possam germinar em nós as sementes da mudança que queremos nos outros. 

Como nossos hábitos se expressam no trânsito?

postado em 15 de dez de 2011 12:50 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:47 atualizado‎(s)‎ ]

Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
 
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A nossa capacidade de julgar e decidir tem um papel fundamental na nossa vida, pois, assim, definimos conscientemente como, quando e onde fazer as coisas. É por isso que podemos realizar ou não alguma ação dependendo do quanto estamos dispostos a realizá-la. Nossos comportamentos podem ser explicados, portanto, pela intenção que possuímos em relação a alguém ou a alguma coisa específica. Se eu digo, por exemplo, que vou levar o cachorro para passear na rua, existe grande probabilidade de isso acontecer, afinal, tenho cachorro, coleira e gasolina no carro (ver foto ao lado).
 
Porém, a intenção pode explicar somente uma parcela dos nossos comportamentos. Em muitas situações, existe uma distância grande entre nossa vontade de fazer (intenção) e o que fazemos de fato (comportamento). Isto quer dizer que nossas intenções nem sempre guiarão o comportamento. Por exemplo, a motivação de ir a pé para o trabalho, em vez de ir de motocicleta, nem sempre se concretizará na prática, mesmo que o trabalho seja pertinho de casa e que não esteja chovendo. Outro exemplo é quando planejamos usar o cinto de segurança no banco de trás, que nem sempre se realizará, mesmo que ele esteja acessível e que saibamos que não usá-lo é uma infração de trânsito.
 
Em algumas situações, portanto, parece haver algo em nós capaz de nos manter presos a determinados padrões de conduta; algo que faz nossos comportamentos permanecerem fixos, repetidos ao longo do tempo. Além disso, esse algo parece impedir qualquer mudança concreta, apesar das nossas melhores intenções de mudar. Quem nunca disse ou ouviu as expressões: “não tive a intenção”, “foi sem querer” ou “ops! fiz de novo!”, em tom de arrependimento por não conseguir parar de repetir um comportamento? Mas que algo é esse?
 
O hábito pode ser uma resposta. Como assim? Para ajudar você, amigo leitor, a entender o que é hábito e como ele está presente em nossa vida, especialmente nas situações do trânsito, acompanhe o depoimento do jovem Abílio...
 
“– E agora, o que fazer?!”, disse a mim mesmo com uma expressão de angústia e preocupação na voz, após constatar que o meu carro havia enguiçado. Não acreditava no que estava acontecendo. Para mim, após anos dirigindo constantemente, tornara-se natural não pensar na maneira de deslocar-me para a universidade ou qualquer lugar; até aquele momento. Resolvi, então, tentar consertar: empurrei-o para lá e para cá pela garagem, troquei a gasolina, mexi algumas conexões da bateria e... nada. Fiz tudo o que podia dentro das minhas possibilidades de tempo e conhecimento. Após quase 40 minutos de esforço, já cansado, suado e atrasado, concluí que não conseguiria ir à parte alguma. Paralisei e disse para comigo: “– Meu Deus, perdi a reunião!”. Todas as vezes, quando chegava a hora de ir à universidade, eu simplesmente parecia cumprir o mesmo roteiro, como se fosse algo automático: pegava a mochila, a chave e ia até a garagem. Chegando lá, eu entrava no carro, dava a partida e acelerava... Eu já nem pensava mais em como ir aos lugares. Naquele momento, eu estava me sentindo praticamente sem pernas. Conscientizei-me que estava tão conectado ao automóvel que não percebi alternativas, como, por exemplo, pegar um ônibus – a estação fica a menos de dez minutos da minha casa. Subitamente, tudo começou a fazer sentido e o acontecimento me pareceu revelador: a opção por usar sempre o carro, talvez pela facilidade, rapidez e conforto, sem eu me dar conta, há tempos havia se tornado um hábito.
 
A história de Abílio se assemelha ao que acontece com muitas pessoas no dia a dia, não é verdade? Ela ilustra como nos comportamos quando desenvolvemos um hábito, neste caso, o hábito de dirigir automóvel. Assim, o hábito é um comportamento que, por ter sido repetido muitas vezes ao longo do tempo, se tornou “automático”. Não no sentido tecnológico, como se fôssemos robôs. Na psicologia, um comportamento é automático quando é realizado sem consciência completa, controle total ou mesmo sem intenção de realizá-lo.
 
É importante ressaltar que o hábito, em si, não é nem bom, nem ruim por natureza, mas podemos desenvolver hábitos saudáveis ou não saudáveis, seguros ou inseguros. Desenvolver o hábito de usar o cinto de segurança é algo bom, desejável. O hábito de andar em alta velocidade é algo que não deve ser estimulado. Em tempos de poluição e congestionamento, andar a pé ou de bicicleta pode ser um hábito a ser estimulado, e o de usar o automóvel tem sido cada vez mais desestimulado.
 
Identificar e analisar nossos hábitos no trânsito pode ser uma estratégia importante, tanto para as autoridades quanto para nós, se quisermos mudar nossos comportamentos inseguros no trânsito ou se quisermos construir um padrão mais saudável de deslocamento. Darmo-nos conta dos nossos hábitos, especialmente aqueles que podem trazer prejuízos para nossa saúde, segurança, plenitude é um primeiro passo em direção à mudança de comportamento desejada.

 

Para saber mais:

1. Aarts, H., Verplanken, B., & van Knippenberg, A. (1998). Predicting Behavior from the actions in the past: Repeated decision making or a matter of habit? Journal of Applied Social Psychology, 28(15), 1355-1374.

2. Bargh, J. (1994). The four horsemen of automaticity: Awareness, intention, efficiency, and control in social cognition. In R. S. Wyer, & T. K. Srull (Eds.), Handbook of social cognition (Vol. 1, pp. 1-40). Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum.

3. Ronis, D. L., Yates, J. F., & Kirscht, J. P. (1989). Attitudes, decisions, and habits as determinants of repeated behavior. In A. R. Pratkanis, S. J. Breckler, & A. G. Greenwald (Eds.), Attitude structure and function (pp. 213-239). Hillsdale, NJ:  Lawrence Erlbaum Associates.

 

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