Tá difícil enfrentar o caos no trânsito? Elabore um plano

postado em 7 de out de 2014 15:36 por Fábio de Cristo   [ 20 de jan de 2015 08:26 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".

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Apresentadora[1]: – E veja a seguir, depois dos nossos comerciais: reportagem mostra um motorista e um caminhoneiro brigando às 7h da manhã nesta segunda-feira, durante um congestionamento na Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Para falar sobre o assunto, entrevistaremos o psicólogo doutor Pedro Henry, que ajudará o telespectador a enfrentar as situações difíceis no trânsito da Capital Federal... 

(comerciais)

Apresentadora: – Voltamos ao estúdio. Meio dia e trinta e quatro minutos. O assunto agora é violência no trânsito. Dirigir em Brasília se tornou um desafio perigoso, não só pelos índices elevados de mortes por acidentes de trânsito, mas também pelos desentendimentos que terminam em agressão e em pancadaria. Veja a reportagem.

Repórter: – O vídeo foi enviado por uma telespectadora que flagrou o momento da briga que ocorreu após um motorista fechar um caminhoneiro. A cena mostra um motorista entrando no pequeno espaço entre o caminhão e o veículo da frente. O motorista, que saía da pista marginal para entrar na pista principal, entrou justamente nesse pequeno espaço com os veículos em movimento. O caminhoneiro foi obrigado a buzinar e a frear bruscamente. Veja, mais uma vez, o momento em que o motorista entra na frente do caminhão. Como resposta, o motorista coloca o braço pra fora do carro com o dedo médio esticado. Irritado, o caminhoneiro acelerou com tudo batendo forte na traseira do veículo, obrigando o motorista a parar. Foi aí que ambos desceram do veículo e começou a pancadaria. O trânsito, que já estava lento, parou de vez. A briga durou apenas 37 segundos, mas foi o suficiente para ocorrer uma demonstração de selvageria. Eles trocaram vários xingamentos, socos no rosto, chutes e empurrões ao longo das quatro faixas da pista. Muitas pessoas estavam em volta olhando, gritando e buzinando. A briga só parou quando duas pessoas interferiram separando os agressores. O motorista voltou para o carro e foi embora após arrancar em velocidade.

Apresentadora: – O psicólogo doutor Pedro Henry está aqui conosco para comentar as imagens e para discutirmos sobre a violência no trânsito. Boa tarde, doutor! Essa ocorrência, infelizmente, não é isolada. Registramos outros flagrantes que foram exibidos numa reportagem especial, ao longo dessa semana, sobre o trânsito de Brasília. Enfrentamos, no cotidiano, situações de falta de educação, de desrespeito e de individualismo que nos colocam em pé de guerra. Como evitar os comportamentos agressivos diante de situações difíceis que acontecem em nosso cotidiano nos engarrafamentos?

Psicólogo: – Boa tarde ao telespectador. Agradeço o convite para esclarecer e orientar a partir da psicologia do trânsito. Antes de comentar as imagens, cujo foco são os indivíduos, o telespectador precisa ter clareza acerca de um contexto mais amplo do trânsito e do transporte em Brasília, e no país como um todo.

A filmagem mostra, em uma pequena escala, a forma como vivemos em sociedade, ou seja, em um ambiente de elevada competição, de defesa dos interesses pessoais em detrimento da coletividade, de pressão por rapidez... Além disso, este acontecimento também expressa as falhas no sistema de transporte que não possibilita alternativas para o deslocamento, o que, consequentemente, aumenta o número de automóveis nas vias, congestionando-as.

Agora, voltando pra situação foco na matéria, que foi a briga entre os motoristas, observamos a necessidade de as pessoas aprenderem e utilizarem estratégias psicológicas para se proteger emocionalmente ou para conviver em harmonia com os outros motoristas no ambiente social que é o trânsito.

Apresentadora: – Mas por que essas reações ocorrem, doutor?

Psicólogo: – Nós aprendemos, ao longo das nossas experiências, um conjunto de reações psicológicas que nos predispõem a determinados comportamentos em situações ameaçadoras.

Os comportamentos que fazemos sem pensar, sem ter intenção, são também chamados de automatismos. Esses automatismos nos ajudam a lidar com as demandas do dia a dia, sem que tenhamos que pensar prós e contras em todas as ocasiões. Entretanto, os automatismos podem não ser a melhor resposta porque, quando nos deparamos com uma situação ameaçadora, nem sempre agimos como gostaríamos ou como seria desejado socialmente. Pela impossibilidade momentânea de avaliar em detalhes as alternativas de comportamento, as pessoas manifestam uma emoção raivosa, agem de maneira agressiva ou se comportam com extrema violência.

Apresentadora: – É possível não reagir de maneira agressiva, rompendo com nossos maus hábitos no trânsito?

Psicólogo: – Sim, é possível. O ser humano é capaz de mudar e de regular a si mesmo (o que chamamos de autorregulação), desde que ele esteja motivado a fazê-lo. É possível substituir os comportamentos automáticos inadequados ou indesejados que fazemos sem pensar, seja porque nos fazem sentir mal ou porque possuem consequências ruins para os outros.

No entanto, não basta só querer, embora este seja um importante começo. Tem que querer muito mudar. Existem estratégias psicológicas que podem aumentar a probabilidade de dar certo, isto é, de ajudar as pessoas a colocarem em prática essa vontade de mudar. As estratégias de autorregulação oferecem os “passos para o sucesso”, mas não existe mágica!

Apresentadora: – O nosso telespectador deve estar curioso. Você poderia comentar uma dessas estratégias? O que fazer, então, pra não reagir de maneira agressiva no trânsito?

Psicólogo: – Uma estratégia indicada pela psicologia é a intenção de implementação. Significa criar um plano para transformar um objetivo (isto é, uma intenção) em uma ação concreta (ou seja, implementar algo que estamos motivados a fazer). Dito de uma maneira mais simples – embora não exista nenhum gênio da lâmpada –, a intenção de implementação é constituída por “passos para se realizar um desejo”. Mas, nesse caso, você é o seu próprio gênio!

Estudos demonstram que criar esse tipo de plano, por mais simples que possa parecer, pode ter grande efeito no comportamento, inclusive não só no contexto do trânsito, mas em contextos de saúde (por exemplo, fazer atividade física e ter uma alimentação saudável).

Quando criamos um plano, buscamos garantir que uma meta seja alcançada por meio de alguns comportamentos. E esses comportamentos não são selecionados na hora da situação. Eles são selecionamos antecipadamente, isto é, antes de nos depararmos com a situação ou oportunidade. O plano deve ser feito antes de entrar no carro e de sair dirigindo, avaliando-se as situações específicas antecipadamente e os comportamentos selecionados para alcançar o objetivo.

Apresentadora: – Alguns telespectadores poderão pensar “planejar exige tempo e reflexão; não disponho desse tempo”.

Psicólogo: – Sim, existe um esforço inicial, um custo para assim dizer. Isso demonstra que mudar comportamento não é fácil; mas vale a pena e traz benefícios para todos.

Apresentadora: – Interessante! Então para ficar mais claro, como o caminhoneiro e o motorista poderiam ter se preparado para evitar aquela situação?

Psicólogo: – É importante dizer que, nessa situação específica, o caminhoneiro não teve culpa no início da situação, uma vez que o motorista buscou entrar na fila por um espaço que era insuficiente para caber seu veículo. Mesmo assim, ambos poderiam estar mais preparados.

Agora, suponha que o caminhoneiro pega essa pista diariamente no mesmo horário. Ele sabe, portanto, que haverá engarrafamento e que alguns motoristas mais apressados poderão fechá-lo. Essa também é a situação de muitas pessoas.

Elaborar um plano significa selecionar a oportunidade mais adequada e os comportamentos mais efetivos para alcançar o objetivo almejado. Formar uma intenção de implementação nada mais é do que decidir antecipadamente três coisas: quando, onde e como implementar um objetivo. A seguinte frase ajuda a decidir esses pontos: “Se a situação X acontecer, então eu farei Y”.

Dessa maneira, antes de entrar no veículo, o caminhoneiro deve elaborar um plano da seguinte maneira: “se eu estiver na EPTG (onde) próximo a um trecho onde a pista principal se encontra com a marginal (quando), então eu deixarei um carro passar na minha frente (como)”.

O motorista que trafega na marginal, também deve fazer um plano: “se eu estiver na marginal (onde) próximo ao trecho onde essa pista se encontra com a EPTG (quando), então eu entrarei na fila caso exista um espaço adequado para meu veículo (como)”. De certa forma, a implementação de intenção é um benefício para o sujeito e para o outro que convive com ele no trânsito, assim todos ganham com isso.

Essas novas respostas, com o tempo, se tornarão tão automáticas quanto as respostas anteriores (que eram raivosas e agressivas), substituindo-as. A tendência é que a resposta habitual anterior seja bloqueada. Dessa forma, é possível proteger com sucesso a busca pelo seu objetivo, ou seja, de se comportar de uma maneira mais cordial.

Apresentadora: – Muito obrigado, doutor! Antes de terminar, o senhor gostaria de dizer algo?

Psicólogo: – Sim, tenho uma última mensagem ao telespectador: quando você notar que está difícil enfrentar o caos no trânsito, elabore um plano antecipadamente identificando “quando, onde e como fazer”, para não ser pego de surpresa em situações específicas! E lembre-se: planejando, você evitará situações ainda mais estressantes para si e para o outro.

Apresentadora: – Estivemos aqui com o psicólogo Pedro Henry, seguimos agora com a previsão do tempo...



[1] A situação de entrevista e a reportagem são originais, embora criadas com base em fatos reais.

Agradecimentos:
À Dra. Lílian de Cristo e ao professor Dr. Fábio Iglesias, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, pela leitura crítica da versão preliminar deste texto.

Para saber mais:
Gollwitzer, P. W. (1999). Implementation intentions: Strong effects of simple plans. American Psychologist, 54(7), 493-503. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/gollwitzer/99Goll_ImpInt.pdf

Gollwitzer, P. M., & Brandstätter, V. (1997). Implementation intentions and effective goal pursuit. Journal of Personality and Social Psychology, 73(1), 186-199. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/gollwitzer/97GollBrand_ImpIntGoalPurs.pdf

Gollwitzer, P. M., & Oettingen, G. (2013). Implementation intentions. In M. Gellman & J. R. Turner (Eds.), Encyclopedia of behavioral medicine (Part 9, pp. 1043-1048). New York: Springer-Verlag. Disponível em: http://www.psych.nyu.edu/oettingen/Gollwitzer,%20P.%20M.,%20&%20Oettingen,%20G.%20(2013).%20In%20%20M.%20Gellman%20&%20J.%20R.%20Turner%20(Eds.).pdf
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