Intervenção Profissional em Instituições de Transporte

postado em 24 de ago de 2011 22:33 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:51 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".
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Com alguma frequência, tenho recebido e-mails de estudantes, estagiários e profissionais perguntando ou pedindo sugestões sobre “o que” e “como” desenvolver atividades nas instituições de transporte as quais estão vinculados.

 
Questionamentos desse tipo podem evidenciar certa insegurança em identificar o que é importante fazer dentro de uma organização de transporte, ou seja, aquilo que vale a pena investir tempo, dedicação e esforço pessoal. Sugerem ainda a possível existência de algo (p.ex., uma técnica, um programa, um treinamento) usado em outras instituições ou divulgado na literatura que pode ser uma “boa idéia” para ser aplicada também na própria instituição.
 
Esses aspectos de modo algum estão completamente errados. Aliás, é bastante natural querer investir em uma atividade potencialmente exitosa ou em um trabalho que as pessoas esperam que façamos, gerando satisfação de estarmos fazendo “a coisa certa”. Também é natural, até certo ponto, querer aplicar modelos de atividades implementadas em outras situações, o que, por sua vez, produz certa tranqüilidade no profissional, já que ele estará percorrendo o mesmo caminho que outras pessoas ou empresas percorreram/percorrem.
 
Entretanto, será que existe realmente algo que seja considerado previamente a coisa certa a fazer? Será que existe um modelo teórico prontinho para ser aplicado indiscriminadamente em qualquer contexto? A resposta pode ser não, caso inexista um levantamento prévio dos vários aspectos da instituição de transporte, como, por exemplo, no nível organizacional: seus objetivos e metas, suas necessidades, limitações e potencialidades; e, no nível individual, ou seja, dos funcionários: o conhecimento sobre a estruturação do trabalho e os processos relacionados. Sem um conhecimento mínimo de alguns desses aspectos práticos, é provável que o profissional dê um tiro no escuro, mesmo achando que está fazendo um bom trabalho!
 
Uma pequena estória pode nos ajudar a entender melhor isso. Certa vez, uma psicóloga foi convidada pelo comandante de um batalhão de trânsito para dar uma palestra sobre motivação para seus policiais. O oficial queixava-se que seus subordinados estavam sem empolgação para trabalhar, sendo necessário reverter tal situação. A psicóloga, por sua vez, sabiamente, resolveu conhecer o local de trabalho dos policiais e conversar com alguns deles, observando todo o contexto de trabalho antes de agir na realidade proferindo a palestra. Quando lá chegou, a profissional logo constatou diversos problemas, dentre eles, a escassez de recursos para abastecer as motos, má qualidade da alimentação fornecida, fardas velhas e desbotadas, coturnos rasgados e daí em diante. Em face dessa situação, a psicóloga concluiu que de nada adiantaria uma simples palestra sobre motivação, pois não atenderia as necessidades dos policiais, podendo inclusive causar um problema maior na organização, já que o problema atribuído aos indivíduos mais parecia ser o reflexo de um problema da própria corporação. Moral da estória: deve-se conhecer para intervir com proveito.
 
Se pensarmos como essa psicóloga, concluiremos que não existe “a coisa certa” a fazer, mas existem necessidades institucionais diferentes que cabe ao estagiário ou profissional a habilidade e a sensibilidade para reconhecê-las por meio de um levantamento diagnóstico. Nesse sentido, indicações de atividades e/ou modelos de intervenções estabelecidos previamente, sugeridos por alguém que, não raro, desconhece a situação, ou indicados pela literatura da área, podem ser desastrosos se tomados sem a devida cautela.
 
Caberá ao profissional focar no trabalho que seja importante para a organização e os indivíduos que nela trabalham, fundamentando sua atuação em um levantamento sistemático de informações. Simultaneamente, a identificação do problema e das soluções está associada ao domínio que se tem da literatura específica da área de atuação e de outras áreas associadas. Por meio da integração das informações advindas dessas duas fontes, é provável que você, caro profissional, em sua intervenção em instituições de transporte, contribua efetivamente possibilitando a aplicação racional dos recursos da instituição e a felicidade das pessoas no ambiente de trabalho.
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