Trânsito: Um Espaço de Convivência Social

postado em 24 de ago de 2011 20:33 por Fábio de Cristo   [ 7 de out de 2014 16:49 atualizado‎(s)‎ ]
Autor: Fábio de Cristo, psicólogo (CRP-17/1296), doutor em psicologia e pesquisador colaborador na Universidade de Brasília, onde desenvolve pós-doutorado sobre o comportamento no trânsito. Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro "Psicologia e trânsito: Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores".

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O trânsito é um grande espaço que possibilita, entre outras coisas, o encontro e o convívio social entre as pessoas. Entretanto, esse convívio nem sempre ocorre de forma satisfatória ou harmoniosa, o que não raro gera irritação, estresse, conflitos e confusões. Muitos fatores influenciam para que isso tudo aconteça. Sabemos que fatores econômicos, sociais, culturais e ambientais da atualidade, por exemplo, vias esburacadas e mal planejadas, sinalização precária ou a falta dela, grande quantidade de atividades e a exigência pela rapidez na execução das nossas tarefas, as constantes enchentes, os altos índices de poluição, enfim, tudo isso contribui realmente para não termos uma circulação humana de qualidade nas cidades. Assim, cria-se uma visão negativa do trânsito e se diz frequentemente que “o trânsito” é ruim, “o trânsito” é desgastante, “o trânsito” é isso ou aquilo. Por outro lado, tomando somente esses fatores, tendemos a nos excluir do nosso compromisso de cidadãos para um trânsito harmônico, pois, além desses, existe outro de que não se pode esquecer: o fator individual ou humano, que representa a nossa parcela, a nossa contribuição para o bom ou mau convívio com as pessoas no ambiente do tráfego.

Vejamos o exemplo a seguir. Enquanto João está passeando tranquilamente de carro, mostrando a cidade para sua nova namorada, José, que está em um veículo atrás, espera o momento de acelerar e ultrapassar, pois está meia hora atrasado para o trabalho. Carla, por sua vez, está na mesma avenida, ao lado de João e José, e encontra-se bastante ansiosa, com mil preocupações, porque tem de efetuar um pagamento no banco que está fechando e, ainda, pegar o filho no inglês e deixá-lo na casa da avó. Já Sandra, está indo a pé para a universidade e caminha, distraidamente, sobre a faixa de pedestres que está em frente ao mesmo semáforo, que está fechado. Dedé, o flanelinha, está no local tentando convencer o apressado José a deixá-lo limpar o para-brisa, a fim de ganhar um trocadinho…

Pois bem, perceba, caro leitor, que o exemplo ilustra o que acontece com a vida de milhares de pessoas todos os dias nas cidades. Cruzamos com muita gente no trânsito, motoristas e pedestres, cada qual com seus próprios pensamentos, objetivos, anseios, necessidades etc. Se não soubermos lidar com esses aspectos individuais, fatalmente entraremos em desacordo com os demais usuários do trânsito e, consequentemente, a fúria, a raiva, a ansiedade ou o medo se expressarão através do nosso comportamento na via ou na calçada. Compreender o trânsito como um espaço de convivência social pode ser algo importante para nos ajudar a minimizar ou diluir muitos dos conflitos que presenciamos no cotidiano, porque, uma vez tendo a compreensão de que cada indivíduo que está na rua, assim como nós, tem a sua necessidade, o seu próprio objetivo ao trafegar, poderemos adquirir uma compreensão mais ampla do ato de circular e, desse modo, poderemos estar mais preparados para enfrentar alguns eventos estressantes que possam acontecer, munidos com um pouco mais de tolerância e respeito. Compreender que o trânsito é um espaço de convivência social significa dizer que ele não pertence só a nós, caro leitor, mas a todos na mesma medida; significa que os interesses individuais no momento que se entrecruzam devem ser negociados visando o bem coletivo, pois, assim como nós, outros também estão querendo utilizar o espaço que lhes é de direito.

Portanto, antes de o leitor dizer qualquer coisa negativa sobre o trânsito, procure primeiro indagar-se sobre seus próprios comportamentos que contribuem para que esse espaço seja considerado negativo. E, ao circular, quando o leitor se der conta de que está agindo de modo inadequado com os outros usuários, procure lembrar-se de que esse é um espaço de convivência social, que eles também têm interesses específicos diferentes dos nossos e que tais interesses poderão entrar em choque a qualquer momento. Quando isso acontecer, como você agirá?
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